O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado Graça Strech ao consulado, muito laconicamente respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graça Strech nem agradeceu[{188}] nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um banco, na mesma posição. O navio largou; elle não ergueu os olhos.

Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia o annel.

Respondia sempre:

—Porque este annel tem mysterio.

E, surdo a outras perguntas, começava tangendo maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um cão, e de tal modo se estimavam, cão e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu companheiro quando era açulado pelo rapazio.

Onde encontrára o guitarrista o cão?

É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo.

N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente receberam o guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava pelo nome de Janota, e se rebellara contra todos os affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal occorrera durante a primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, um official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot.

O guitarrista, applicando ao caso esta recordação[{189}] da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do general francez.

Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias donas do casebre se habituaram a dizer Junot em vez de Janota. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente occasião de falar-lhe.