O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar as suas communicações com Tuy ou marchar sobre o Porto, mas, como era natural, attenta a importancia d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou pelo segundo dos caminhos a tomar, porque melhor realisaria assim o seu sonho de conquistador.

Ouçamos o sr. Soriano historiando o roteiro que o marechal Soult seguiu de Braga ao Porto: «Deixando portanto em Braga a divisão do general Heudelet, para lhe defender a rectaguarda contra as incursões do general portuguez, José Antonio Botelho de Sousa e Vasconcellos, que commandava as forças da divisão da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu o seu exercito em trez columnas, a primeira marchou pela estrada de Guimarães a S. Justo, com ordem de forçar a passagem do Ave de Cima e occupar o campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada pelo proprio Soult em pessoa, marchou logo direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando Barcellos, para onde de Braga tinha sido mandada, tomou a estrada da ponte do Ave. A passagem d'este rio foi fortemente disputada pelos portuguezes, sendo a columna da esquerda obrigada a bater-se renhidamente em Guimarães, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo n'este ultimo ponto, onde morreu o bravo general Jardon, cuja falta muito sentida foi pela totalidade do exercito inimigo. A marcha da columna do centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se ter n'ella cortado a ponte do Ave; mas Soult, vendo o grande cumulo das nossas forças ali, forçou a passagem em S. Justo, ganhando a margem opposta. Desde então facil lhe foi a columna da direita fazer o mesmo, ficando assim vencida a passagem do Ave em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente o caminho em direitura para a cidade do Porto, a[{26}] cujos entrincheiramentos o exercito francez chegou no dia 27 de março.»

Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avançada do inimigo, acampado em S. Mamede de Infesta, adeantou-se até um quarto de legua das baterias do Porto.

Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximação dos francezes. Para logo se espalhou o terror, não obstante terem sido organisados alguns elementos de resistencia.

As familias que tinham os seus empenhados nas linhas de defeza, afflictivamente receiavam os perigos de uma grande catastrophe, pois que ainda quando a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpôr-se aos primeiros combates e aos louros do triumpho um mar de sangue portuguez.

Que dolorosa commoção não seria a de Augusta, que torturado soffrer nas vascas da anciedade não seria o seu, ao ouvir estrondear á distancia o fogo que os invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde combatiam o pae e o irmão! Aquellas trez mulheres, a avó, a mãe e a filha, ajoelhadas deante de uma imagem de Nossa Senhora, cerrando convulsamente os olhos a cada detonação longinqua, dir-se-iam outros tantos authómatos, empedrados pelo terror, se não fôra o ciciar dos labios e o abrir e fechar nervoso das palpebras.

Sabem como baloiça a haste do lirio, quando o sopro calido da tempestade proxima passa esfuziando por entre a folhagem das plantas que lhe offereciam resguardo?

Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, entre os dois corações amigos, o da avó e o da mãe, que já não podiam garantir-lhe protecção.

Conhecera o marechal Soult que era má a fortificação da cidade e má a guarnição, e expediu no dia 28 um emissario propondo capitulação. O emissario, para se não arriscar á morte, serviu-se de um ardil de guerra e disse-se incumbido de negociar a entrega do exercito francez mediante condições favoraveis.

Entrou o bispo em negociação, cuja má fé, por parte dos invasores, estava manifesta na circumstancia de continuar a ser intenso o ataque durante todo o dia.