N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma[{27}] nas ruas. Recresceu a anciedade no presupposto de serem as avançadas francezas.
A morgada das Chãs teve a coragem precisa para se aproximar da vidraça, e viu um militar francez rodeado de grande turba de populares que gritavam enfuriadamente: «Morra o Maneta! Morra!»
Adivinhou-lhe o coração que era um emissario, que provavelmente ia á bateria de S. Francisco a parlamentar com o bispo. Quasi defronte das janellas, como augmentassem as vozes de: Morra Loison, morra o Maneta, o militar francez levantou ambos os braços para desfazer o equivoco. Não obstante, a populaça arremettia contra o cavallo em que elle vinha montado, e a celeuma rugia temerosamente.
A morgada correu a abraçar a filha e a neta, ajoelharam orando fervorosamente, e longo tempo supplicaram que um raio da Providencia illuminasse o coração do povo, para que á desgraça da invasão não sobreviesse a furia da represalia.
O emissario francez não era effectivamente o general Loison, mas o general Foy; com blandicias e ameaças, escriptas por Soult, vinha propôr a rendição, que foi recusada.
Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 tempestuosa e triste, como se o céo compartisse do luto da terra. Ás detonações do trovão respondiam as detonações da artilharia.[{28}]
[2] Chamava-se então rua Nova, porque o celebre governador da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou o seu nome.
[3] Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi obrigada a pegar em armas.
[4] Este facto consta do relatorio do proprio barão.