Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.
José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender.
Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.
José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu pensamento o auxilio de uma ideia.
N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam o inferno.
E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.
Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um romance tenebroso,[{44}] achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da Ribeira, a dois passos da ponte pensil.
Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.
A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação:
«Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»