E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos dos invasores.
José Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra linguagem dos acampamentos:
—Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta hora não haverá um só braço que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descançae, descançae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança acordará terrivel, e então vos pedirá contas das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, seremos um só inimigo, porque a nossa vingança é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará por desaffrontar a memoria dos seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...
E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido:
—E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... Por este annel o juro, que será o meu fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar até a hora da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos valentes; elle será a minha égide protectora se a morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, que jámais quebrarei...[{47}]
VI
A mariposa do acampamento
Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.
O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar ao peso d'aquella grande alma.