Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando a cada passo, e deixando após si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se certificar da existencia d'alguma coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.
Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chãs, e que elle conservára no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.
Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.
Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem as mais violentas congestões parecia succederem-se rapidamente.
Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?
A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.
O que parece mais proximo da verdade é que, não sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.
Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escuridão d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um passo.
N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam[{48}] a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graça Strech estava porém desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete, perguntou com voz tremula:
—Quem está ahi?