O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem empregada no supracitado diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento ao n.º 2.º:
«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, parecia no passado governo tocado de paralysia; mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que os bons conhecedores já tinham d'antemão entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez que desdenhou lançar mão das redeas do governo, que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e nada é já para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve aos céos que os nossos destinos passassem a outras mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem isento de paixões, e que só tem a da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, que o grande Napoleão lhe confiou, senão para nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, e as promessas que nos fez[5], desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? O soberano de França prestará ouvidos aos nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante comarca, já que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»
Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta[{50}] os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a necessidade de collocar um principe de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança deixára devoluto.
No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida por todas as autoridades civis, clero, deputados, nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.
A deputação, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão Quesnel, investido nas funcções de governador militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepção, onde o corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos do Diario do Porto.
O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente uma lamentavel nodoa que macula as paginas da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante a invasão, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia com a heroicidade de cinco annos, que tantos são os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros.
Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo[{51}] rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se defender a patria, que ficára.
Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, que
O fraco rei faz fraca a forte gente
Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada existencia mais inspira por vezes compaixão do que odio.