Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos ferido em companhia da ronda franceza.

Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se estabeleceram nos conventos do Porto:—o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de lá gentille vivandière, recebeu o ferido e, ajudada por outras, deitou-o no catre e começou o curativo do ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal Soult não explicaria cabalmente.

É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baqueára magestosamente. Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; por entre os labios, descórados e immoveis, não se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, o soldado, que a espaços abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia.

Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella não entendia. Como, porém, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente[{52}] mechanico e talvez não; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus.

A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia...

Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa.

Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, aquella vasta floresta, Arduenna sylva, golpeada por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado do mesmo regimento.

O bom velho, que penhorado acceitára tão grave legado, era só, e n'uma época em que o exercito francez estava em continua mobilisação, achou que o melhor meio de velar pelo destino da creança era trazel-a sempre ao pé de si.

Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto das conversações do acampamento, a mariposa inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro soldado. D'essa campanha ficou até na memoria do regimento uma agudeza da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da fealdade de certo camarada.

—Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.