Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria.

Vejamos:

«30 de novembro de 1807.—Meu irmão.—Não sabes como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...»

«18 de setembro de 1808.—Meu José—Graças a Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira[{59}] deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças. Tua—Augusta

Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados outros.

Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora timidez perguntou:

—Chorava?

—Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com doçura meiada de altivez e fingimento.

—São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera simplicidade.

—Por quê?