—Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?

—Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...

—Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...

—Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem... É...—E calou-se, receiosa de proseguir.

—É?

—A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito.

—Capitão? perguntou Graça Strech.

—Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha que me deixar...—E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.

Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.

—Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres—e indicou as demais vivandeiras—nem sequer se lembram de que tiveram pae! Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de remorsos a consciencia.—Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;[{61}] estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite, porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui eu quem o feriu?...