Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que soffria? Porque esse homem—suppunha-o ella—amára doidamente, com o fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E[{64}] as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus designios.
Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.
—Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?
—Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.
—Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então completará a vingança dos meus desabrimentos.[{65}] Completará, disse eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...
A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria.
—Gratidão! disse?—soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena, muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu[{66}] invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque elle—disse ella com irreflectida candura—tambem amou muito, segundo contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? Sabe o que isto quer dizer?...
E calou-se de subito, ruborisada de pudor.
—Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade d'aquella confidencia.
—Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor...