—Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome de seu pae?

—Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor[{67}] me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia dizer...

A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação. Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a chamma!

E Rosina era a mariposa do acampamento.

Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:

—Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me chore—morrerei feliz.

—Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente caprichos de franceza...

E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:

—Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer a minha nacionalidade para me não odiar...[{68}]

Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.