Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.

Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade.

Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna projectava na parede fronteira ao seu catre.

Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros estejam mal.

Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...

E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas e outros—cemiterios de vivos.

A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, até se avisinhar do seu catre.

Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado, que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.

E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego das Ardennas.

Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição.[{69}]