Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.

Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os francezes.

Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.

Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor se poder erguer para responder á aggressão.

E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:

—Sou eu.

Graça Strech reconhecera Rosina.

O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher enroladas em cachos?

Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento cria, e a noite avulta.

—Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.