—Que faz? perguntou Graça Strech.
A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer:
—Atiro á agua o passado.
—Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro?
—É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar o papel que devo representar ámanhã...
—Mas... não percebo!
O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua, como quem diz lobo do mar, era aquelle um mysterio impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre o povo d'um e outro paiz?
O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes oppostas dos sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra pessoa, que não fosse rude, não se admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que já se presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns foram os corações que se renderam á prepotencia de Junot, e que era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais quem d'elle tiver dó.»[6] Finalmente, ainda conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes[{75}] serviços que prestou aos francezes, com os quaes se retirou para França ao depois.[7]
O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria portanto de que o coração ainda tivesse um élo para ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes forte—porque é robusto e porque não esta só.
A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos do vendaval, que são os primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella.