D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808, tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.
Que ignorante aquelle!
Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para avultar a necedade do barqueiro, senão que para desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido dialogo.
—Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel a concentração em quem agora renasce para a existencia. Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar[{77}] que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o. Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte... Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; eu viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o meu coração; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si! Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou vivandeira...
Graça Strech queria falar.
Ella atalhou-o:
—Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: «Rosina Regnau, não te esqueças de que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o coração para morrer, a bala cae no coração.
—Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente commovido.
Ella atalhou-o de novo:
—Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. Ámanhã serei—a muda. Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente da sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei[{78}] voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo passo surda e muda. Se porém o calor da lucta não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me odeie, como a principio me odiava, então não me mande embora, denuncie-me, entregue-me. Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o resgate é facil...