—Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina, quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto amor por outra mulher que não fosse...
—Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. Não quero saber quem amou; seja esse o segredo do seu annel.
—Acredite, Rosina, que o amor de que este annel é recordação era o mais puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite, era minha irmã.
—Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não é a saudade, é o enthusiasmo...
—Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella tambem estas cartas... Póde vel-as, desenganar-se...
—Não as entenderia.
—É verdade. Não as entenderia.
—E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas para acredital-o...
—Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa, tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes com um assassinio, commetteram mais dois na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é[{79}] um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e só para elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.
Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordação ligada áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica não era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto que delgada, insupperavel—o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o mais, a duvidar, a ter ciumes?