É realmente assombrosa a historia portugueza nas paginas que dizem respeito ás guerras peninsulares.

São tão descommunalmente grandes os factos, que, em sua mesma simpleza, ora se nos affiguram episodios d'Homero, exuberantes d'esforços titanicos, ora se retingem dos toques sombrios de Dante.

As façanhas da invasão franceza claramente revelam que ha pouco mais de sessenta annos corria ainda nas veias dos portuguezes o sangue dos valentes d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes das cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança de paes a filhos. Podia o animo portuguez desvariar se por momentos, como já anteriormente fizemos notar, que logo despertava melhor retemperado para a rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer 1580, e que o vulto homerico de João Pinto Ribeiro resgata a perfidia de Miguel de Vasconcellos.

Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se parlamentares, isto é, falamos muito e praticamos[{83}] pouco. A apostrophe «S. Jorge e ávante!» foi substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos regimentos e mais commissões. Não obstante, alguma faulha resaltaria ainda das cinzas quentes das nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, na hora em que perigasse a independencia da patria.

Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas côrtes de S. Bento discursam calorosamente sobre a nossa autonomia, requereriam, dada a voz de alarma, inspecção da junta de saude para serem considerados invalidos...

Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante as guerras peninsulares. Estupendos foram, é certo.

No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, perecera gloriosamente um official d'artilharia, muito lastimado por seus companheiros d'armas, incluido o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.

O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se de gala, dizendo esta nobre mulher aos dois filhos que lhe restavam, e estavam pranteando o irmão:

—Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. Vós é que morrereis da morte da vergonha se vos não mostrardes dignos da sua memoria.

Este exemplo d'animo varonil em peito feminino prova que não anda phantasia popular na lenda d'aquella Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a heroina de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas matronas portuguezas, que deram á patria uma geração de meninas que fazem crochet.