—D'onde viria? perguntavam elles.[{85}]

—É minha... irmã, atalhou commovido Graça Strech. Não podia convencel-a a que me não seguisse, porque a infeliz nem ouve nem fala. Veiu vindo atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me. Pobresinha!—acrescentou com os olhos marejados de lagrimas—não faz mal a ninguem, e é muito minha amiga.

—Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! observou piedosamente um portuguez.

—Nem se diria portugueza! exclamou outro com a affouteza que lhe dava o não estar na presença de portuguezas.

Graça Strech replicou:

—Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto como no nome. Os nossos antepassados tinham sangue teutonico. Ainda nos corre nas veias o sangue d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem ouvidos nem voz, quer estar ao pé de mim sempre que póde, como para falar pela minha bocca e ouvir pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... Tambem a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, e ella de si pouco tem...

—Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.

Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu papel. Passavam por ella e diziam: A muda allemã! e ella, apesar de entender a phrase á força de repetida, nem sequer voltava o rosto para agradecer aquella esmola de compaixão.

Se não ouvia! se não falava!

Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas verdes ou a desfolhar flôres.