Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para se inteirar da posição das tropas.
Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, quando Graça Strech se demorava ainda, e pousando a face na mão e fechando os olhos, perguntava por gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os soldados, que já a comprehendiam, acenavam-lhe negativamente.
Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira saisse para fóra de si mesma.
Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de pensamentos, de esperanças muito vagas... agitavam aquelle formoso cadaver que só tinha vida nos olhos?[{86}]
Ninguem.
E todavia ella estava pensando sempre...
A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir inteiramente a alma de Graça Strech, porque ella desde o momento da fuga para ninguem mais vivia.
—Achou decerto—suspeitava ella—que eu não era digna de receber a confissão do seu segredo. Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre vivandeira, para comprehenderes a enormidade d'um amor que vive na morte? Se aquelle annel fosse realmente de sua irmã, curvar-me-ia a seus pés e beijar-lh'o-ia. Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da mão ainda mesmo com a certeza de morrer esmagada pela sua colera. Cumpre pois que, por sacrificio sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos o bastante para elle me convencer. N'esse dia serei sua amante; por emquanto sou apenas o seu cão. Vamos, solitario molosso, affaga o teu dono...
Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...
Ella sorria tambem.