—Sorri! pensou ella.—Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem está recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que, rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal, porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, faze como os soldados que foram teus irmãos. Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente esse coração onde desejas reinar, porque todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.
Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente triste.
—Sempre aqui!—segredou elle.
—Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.
—Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha[{100}] irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...
Sentiram-se passos.
—Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau já aqui não está. Fica apenas a muda allemã.[{101}]
[10] A invenção dos jardins por Gessner; tradução do sr. Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).