O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova:
Foi aqui mesmo, á tremula
Sombra do olmeiro,
—Dizia o pastor Lícidas—
Aqui, aqui,
Que eu hontem n'estes labios
Tive o primeiro
Beijo da minha Flérida,
E endoideci![10]
E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.
—Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma, inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim, bem vês, pobre coração, meu pobre coração que tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste coração[{95}] tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha que chega para mim e para ella. Para o que não chega é para duas amantes, que se disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira» não soffre competencias. Já se fez amar d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez não mais torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheço desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras, maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse[{96}] uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se, confundem-se, e são estes agora os que triumpham, lá se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado no somno, e tu te lembravas de que eras franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o por toda a parte, e perder a tua voz para que te não conhecessem, e encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem não ha magico na terra que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora do mundo como o imperador, e por feitio que sejas tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de terra a ninguem!...
Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração do ferido, que balbuciou monosyllabos.
—Sonha!—pensou ella—e quem sabe o que sonha? Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que está recordando, o que está sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como livro aberto, a sua physionomia e[{97}]
[{98}]
[{99}] não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez—recordou ella—lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: «Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!—respondeu elle—porque das ostras é que se tiram as perolas, e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que até esconde as perolas. Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As que eu procuro, vivem escondidas ali...
Caiu desamparado, vibrando um grito... (pag. 40)
E apontou para o coração do ferido.
Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade interior: