E só depois que não podia ser vista nem ouvida de estranhos, começou, alternando palavras com beijos, a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só quizesse que a escutasse a alma...

—Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu amor.

—Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face...

—É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.—É o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus!

—Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos... Mas—e perdoa-me, Rosina, perdoa-me—a minha alma só agora te póde beijar livremente...

—Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu José, é tão egoista, tão egoista...

—E não crês possuil-a ainda?

—Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia.[{94}] Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu só tenho palavras para ti e para... Deus.

Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.

Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára sobre as faces de Graça Strech.