A cavallaria franceza vivamente perseguira então a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos e juntassem os dispersos.
Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se José Maria da Graça Strech.
Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes, a muda alemã, como geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances afflictivos, o supremo esforço dos que não teem voz.
E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido,[{93}] a examinar a ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo.
Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, responderam logo, desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.
E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia levemente alterada.
Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a acenando-lhe meigamente com a mão.
Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, disse curvando-se para elle:
—O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmãos dignos um do outro.
Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.