Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão fosse allumiado pelas labaredas do incendio.
Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças que succumbiam á ultima carnificina da segunda invasão franceza.
No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo da sua protecção, e que seria considerado criminoso quem os offendesse.
Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restauração do Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar um Te-Deum na Basilica de Santa Maria Maior.
Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola, ameaçando nova invasão de Portugal pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar[{92}] com seus respectivos exercitos para o sul do reino.
Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição. Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara.
Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.
Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.
D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia até que, cerca do meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada, deixando ficar no campo apenas a legião lusitana.
Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que se realisou pelas trez horas da tarde.