XI
O que a vivandeira pensava
Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito anglo luso.
No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois de marchas tão violentas como trabalhosas, de perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas tropas alliadas.
Na passagem pelas povoações que medeiam entre o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos officiaes.
Á medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de Napoleão.
N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra, escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo uma grande porção dos seus canhões, e munições. Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes, antes que a nossa guarda avançada os pudesse salvar. Esta circumstancia é o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razão, que eu[{91}] possa saber, senão porque não eram amigas da invasão franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo não tem perdido menos de um quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que nós o atacámos junto ao Vouga.»
O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:
«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas: elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está em proporção do tempo que tiveram...»
Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando.