Por um momento se julgou perdido o triumpho, quando a artilharia franceza começou a varejar o Seminario.
Mas não tardou que ao canhão da margem direita respondesse o canhão da margem esquerda, que das alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo negro sobre o valle cavado pelo Douro.[{89}]
Reanimados os portuenses, entraram de preparar barcaças, que conseguiram pôr a salvo do outro lado do rio, e que transportaram as tropas do general Sherbrooke.
Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando até ao caes como o rumor longinquo d'uma cathedral em festa, o concerto das vozes, que pregoavam victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.
Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços brancos em vertiginoso tumultuar.
Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta e nove annos antes, na manhã de 1 de dezembro de 1640, quando um punhado de fidalgos portuguezes subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta de sangue, o famelico leão das Hespanhas.
Era o grito de liberdade longos dias reprimido na garganta d'um povo inteiro.
Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar alguns palmos de terra no mappa da Europa, á hora em que despedaçava as gramalheiras que por sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e dizia ao vencedor de Austerlitz: «Tu prostraste a Prussia em Iena, a Russia em Friedland; tu levantaste sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos de Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da Hespanha, mas nós fizemos estremecer na tua mão, ó demolidor victorioso, a alavanca com que procuravas revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o amigo leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, porque a Inglaterra é muito poderosa. Mas nós, pequenos como somos, fazemos suster o vôo da tua aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão que avassalla: Basta! Pára!»[{90}]
[9] Sua Alteza Real.