Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez torneado por Beresford, o direito por Hill em Ovar, e o centro alcançado pelas divisões Trant e Paget.[{88}]
Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito alliado sobre Villa Nova de Gaya.
De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube o coronel Watters que um barbeiro portuense, salvo da vigilancia das patrulhas francezas, havia atravessado n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, e o barco não menos providencial que a conjunctura, passou á margem direita, voltando á esquerda com trez grandes barcos, que pudera obter.
Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se jubiloso para o coronel e disse:
—Passem as tropas que couberem nos barcos.
Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares da façanha, surprehendendo os francezes que contavam repellir vantajosamente o inimigo quando tentasse a travessia a descoberto.
Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da reconquista do Porto.
Percebidos os francezes da audacia heroica do exercito alliado, para logo se desviaram em movimentos confusos, como o redemoinhar das areias no deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as areias tomam, erguidas no ar, á luz do sol, irradiações prismaticas que deslumbram, assim resplandeciam, á luz do meio dia, as armas dos francezes baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno que medeia entre o caes da Ribeira e o Prado do Bispo.
E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos alcantis do Seminario, como outr'ora os cruzados pelos despenhadeiros da torre do norte, na tomada de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, lord Wellington.
E já para anciedade dos portuenses se abria manhã d'esperança, á medida que os nossos ganhavam terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas nas eminencias sobranceiras ao Douro.