No semblante, como se a distancia e o cansaço fossem amortecendo a maguada vibração da alma, apenas se desenhava o espasmo das supremas afflicções que parecem suspender a vida.

Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços Rosina, e despertal-a, para a realidade do seu amor, d'aquelle excruciante alheamento.[{106}]

Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já dissemos, estavam cuidando dos feridos.

Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de opportunidade para trocarem algumas fugitivas palavras.

Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal pesadello, sentia o doer da realidade muitas vezes peior que os sonhos maus. E a si mesma perguntava o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa a sua compaixão pelo ferido; se a presumiria demudada pela maldição do moribundo; se acaso o effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria levado ao coração o aborrecimento ou o desprezo?

Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor nascera n'aquella hora com o ciume.

Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos seus braços, cobril-o com os seus beijos, embora elle a repellisse com enfado ou desabrimento!

Não valeriam ameaças.

Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia dá:

—Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard, La goutte, que eu conhecia, desde pequena, de o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens e de o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae Regnau, apesar do vicio, estimava-o muito, e até lhe chamava... philosopho. É que o pae Regnau era dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do almoço para que o Bénard não deixasse d'encher a sua garrafinha. O pae Regnau disse então, bem me lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu sem almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que o meu almoço chegou para dois. Não me julgues arrependida do que fiz pelo que elle disse... Tudo quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da minha patria não quer dizer que me esqueça de ti... Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim que me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra felicidade. Abre-me a tua alma, de modo que eu saiba bem o que ella pensa, o que ella sente, e não terei pena de que se me fechem as fronteiras da patria. Não me aborreças nem me despreses... O teu primeiro beijo foi uma promessa, uma esperança; eu acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a lucta. La goutte, se me disse aquellas palavras, é porque[{107}] me estimava; estima-me, ama-me tu quanto eu desejo, que saberei esquecer as palavras de La goutte.