E indicava o coração.

—Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... como tu... Jacques Regnau! lá n'esse quartel que ninguem sabe onde fica... eu te contarei a verdade... Vamos para a reserva... temos tempo de falar...

E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, Rosina Regnau procurou encostal-a ao peito carinhosamente.

—Não!—apostrophou com extrema difficuldade Bénard—não! Um francez... só morre... encostado... a outro... francez... Eh! eh!—rouquejou.

E, procurando aprumar-se, disse com esforço grande de mais para o lance do passamento:

Vive.. lá... Fran...

Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a a morte.

Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras do soldado francez, que morrera amaldiçoando Rosina. Parecera-lhe que a voz da providencia falava n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso subjugou a coragem d'aquelle homem que tinha jurado guerra de morte á França. E todavia expirava ali, ao pé d'elle, um francez saudando a patria nas ultimas palavras que lhe foi dado pronunciar.

Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa especie de imbecilidade que nas grandes commoções se nos affigura ser idiotismo.

O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira vergára ao som d'aquellas palavras horriveis; restava apenas, muito a dentro do peito, a vibração dolorida das cordas maviosas.