Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia em convulsões repetidas, e tinha as faces esbraseadas por um colorido doentio. Todavia parecia detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse de ferro, que lhe offegava a respiração.[{104}]
Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam pelas faces mortalmente pallidas.
Postoque não estivesse presente, por felicidade, ninguem que pudesse ouvir a revelação do segredo, além de Graça Strech, ella não ousava falar. N'aquella hora, em que algumas mulheres e os convalescentes soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os dois irmãos, segundo toda a gente dizia, se dedicassem ao curativo d'um soldado que se affigurava moribundo.
Graça Strech aproximára-se desde o principio por lhe causar estranheza que Rosina Regnau se dispuzesse a soccorrer o prisioneiro.
Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso natural de coração de Rosina voluntariamente opprimido no captiveiro de um amor impetuoso. Sobreviera porém o ciume quando se lembrou de que a vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de feridos francezes, e de que extremado devia ser o interesse para affoital-a á temeridade de se deixar reconhecer.
É bem certo que o ciume completa o amor: porque o ciume é a desconfiança que leva o coração a sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, é santo, assim como se lhe mede o alcance, e se reconhece infinito, vem a convicção de que todos os sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o arrependimento de se haver sido injusto, e accorda o estimulo da consciencia para o não tornar a ser. N'essa hora é que Rosina Regnau começou, sem o saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume de um momento, que as subsequentes palavras do ferido vieram serenar, para arreigar o amor no coração do soldado portuguez. E foi á luz d'esse relampago de ciume que elle comprehendeu a enormidade do sacrificio de Rosina; foram as palavras do prisioneiro francez que lhe mostraram claramente quão grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada pela patria, nos braços d'um homem estranho.
O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar a voz na garganta, proseguiu com longas pausas:
—Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te queriam... Quem havia de dizer que tu... renegarias... a tua França! Eu não morro pelo imperador...[{105}] que não pede nem empresta... que paga mal... eu morro pela... França!... Já não posso... beber... A ultima gotta queria bebel-a pela patria...
E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, acrescentou:
—Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que já tenho a morte aqui...