—Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. Bem se importa o imperador commigo! Não me empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o pede, porque bem sabe como é mesquinho o pret das tropas.
Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. N'esse dia, como a refrega lhe não désse tempo para offerecer a gotta, bebera-a elle toda, por excepção. O resultado foi expôr-se á morte com um denodo que, sommado, daria a embriaguez de quatro amigos. Avançou imprudentemente e ficou prisioneiro com uma bala no peito.
Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros francezes, não pôde todavia resistir a soccorrel-o, quando o seu coração por um momento retrocedeu ao passado. Quasi involuntariamente o fez.
O ferido, sentindo que alguem o estava curando, abriu os olhos e demorou em Rosina um longo olhar. Foi então que ella mediu o alcance da sua imprudencia.
—Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho a vista embaciada, mas ainda te conheço! Rosina Reg...
Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.
O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, não a comprehendeu.
Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre respeitoso e ciumento áquelle lance.
O ferido continuou com difficuldade.
—Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá todos te querem mal!... Se te vissem... matavam-te... Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha garrafinha cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!... Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não teem um palmo de terra, e mettem-me uma bala no costellame... Irra! Boa aguardente... E tu aqui! Entre elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar pulo de cobra no outro mundo...