O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vão revezando as côres, alternando as nuances, e embriagando-se ella a pequenos haustos no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.
Este é o amor das almas versateis, que não se vergam ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente[{111}] haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas são a agua que baptisa na religião dos attribulados. A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á transparencia do cristal.
Desde então começou a amar como os que teem soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára elle em Alcantara.
Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma revelação;—eram a promessa da felicidade.
Os acontecimentos não permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.
Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera parelho do amor.
Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden viridente de Portugal para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras fadadas para o amor. Já o disse um poeta:
Quem nunca viu Coimbra
Pela brisa embalada
Do Mondego,
Que de amorosa timbra
Na margem reclinada
Com socego,
Não sabe o que é belleza,
Ai! não conhece a filha
Dos amores,
Mais nobre que Veneza,
Mais linda que Sevilha
Sobre flôres.[11]
Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema[{112}] das lagrimas da formosa Castro—o maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha a doidice que se respira n'aquelles ares, porque já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores que nos pintam amores fabulados de tão acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe e da aia.
Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau, como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas do amor, se acalmava na mutua confiança das almas que se possuem.