—Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.

—Fala!... exclamou Graça Strech.

—Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que é preciso vencer. O meu amor, que começou por dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras de soldado não fossem desmentidas pela tua physionomia de ferido sem eu perceber a verdade. Já então—mal o pensavas!—a minha vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações do teu semblante, como a mãe que observa, de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira, e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem esperança: o meu amor era recompensado com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém, Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua vingança. O que tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo o meu—dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um remedio para que o mesmo[{114}] veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado sempre d'ella. Comprehendo como se possa amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde deixar de ser d'esse anjo...

Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com que ardor é amado.

Quiz falar; ella interrompeu-o.

—Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com outra mulher que não fosse tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente como o infeliz Bénard, até que as balas dos soldados da França se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer amortalhada no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente te peço que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior altura da agua, se o coração me disser que me estás enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua irmã te peço que sejas verdadeiro...

E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio offegante...

—Pela memoria de minha irmã te juro que mais[{115}] uma vez te repetirei a verdade—disse Graça Strech, cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura dos que estão fazendo uma confissão sincera.—Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te, pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram a mim para que eu não pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter morrido no mesmo dia, porque houve participação official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do combate, não foi assassinado. E depois era um soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos, e não me enganou a mão quando me pareceu ser aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das sombras que a interposição dos moveis projectava na parede, parecendo moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da minha imaginação, eram visões da febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo[{116}] para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então que a Providencia me soccorreu e me permittiu um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,—ella, que era tão franzina!—este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido, e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe d'uma vez.

E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar.

Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a avivar tão recentes e profundas dôres.