--Tomal-o-heis com um trapo quente.

N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente elle se teria doído menos de uma descompostura destemperada, como aquellas que as peixeiras de Lisboa não precisam ensaiar-se para desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da réplica, abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingança, que logo poz em execução.

Disfarçadamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de castanhas ou quejando mister. Aqueceu um trapo, o primeiro que se lhe deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo na tomadia.

Escarcéo da peixeira, que se dizia roubada. Agglomeração de povo, que ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appêllo dos dois contendores para a justiça, visto faltar ainda n'esse tempo o bureau policial da Parreirinha.

A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver apoderado do peixe com um trapo quente, condição imposta pela peixeira. Decisão da justiça: que o poeta pagasse os 7 réis e meio que offerecera, e ficasse com o peixe, pois que a condição do trapo havia sido satisfeita, ficando salva a fé do contrato.


Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e começou a embirrar uma vez com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.

Vai isto de accôrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.

Remexendo no caldo, não encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe pouco nutritivo o singular, e começou a despir-se, como se quizesse atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou: que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar de mergulho.