D'outra vez--e aqui vai ser preciso o véo--apostou que em pleno Terreiro do Paço, entre um grupo de dez ou doze picões (arruadores) que alli estanceavam, era capaz de improvisar um water closet, sem que elles protestassem.
Fingiu-se acossado pela justiça e, correndo direito aos faias (como hoje diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso. Cahiram no langará, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o supposto fugitivo não pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado parte agradecendo, e só depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os logrados reconheceram o logro.
Não havia aposta bréjeira que lhe não propozessem, e que elle não acceitasse.
Se seria capaz de açoitar um vinagreiro que ia passando com dois ôdres sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e disse-lhe que desatasse um dos ôdres, pois queria provar o vinagre. Tomou um bochecho e fez cara de não achar bom. Exigiu provar do outro ôdre, segurando elle proprio no que já estava desatado. De repente finge vêr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente. Passa o ôdre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mão, ambos desatados. E então começa a açoitar o pobre homem, que não poderia defender-se sem deixar perder o vinagre.
Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da força d'elle para engarampar um villão, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se queria trigo bom o não podia achar melhor que o de um seu irmão, em certa nau que estava á descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que para não sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o ficaria esperando. O villão pagou logo sete tostões pelo trigo, e deu a capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito. Mas disseram-lhe lá que não tinham commissario em terra, e que só faziam negocio com dinheiro na palma da mão. Voltou o homem ao caes, e já não viu o Chiado; encontrou, porém, os outros guilhotes, os quaes lhe deram uma carta de quitação que o Chiado deixára para o parocho do basbaque, explicando tudo. Ora a carta dizia:
João Pires do Outeiro Me deu a capa e o sombreiro, Sete tostões em dinheiro, E mais me dera Se mais tivera.
Não tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob esta côr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o local que o Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que logo se cozinharia, e que fôsse buscar qualquer tempêro que faltava. Quando o ingénuo moço tornou, já não viu o Chiado nem o peixe.