Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se de lhe pôr um tampão e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas, encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas á Ribeira, que o queria embarcar, e que esperassem lá por elle para lhes pagar o frete.
Como o Chiado não tornasse a apparecer, foram os carrejões avisar a justiça e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisação de seu trabalho.
Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o «e mettendo a mão dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que não imaginavam, e logo viram que fôra lanço do Chiado.»
Logo viram que fôra lanço do Chiado: esta phrase testemunha quanto era fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginação do famoso bohemio do seculo XVI.
Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes foliões do seu tempo.
Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes attenção, ouviu-os dizer:
--Eu tomára ser bispo.
--Eu tomára ser pápa.
--Eu tomára ser rei.