Propoz ao capitão da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era robusto para o trabalho do mar, mas que não podia amansar em terra.
Fez-se o ajuste, sob condição de que o escravo iria á mostra.
Os outros picões levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes, logo receberam d'elles o preço que fôra combinado.
Protestou o mulato não ser captivo, mas não foi acreditado, visto terem-lhe posto fama de soberbão. Quiz reagir á viva força, mas lançaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fóra, como escravo, se a justiça, informada da occorrencia, o não fosse libertar a bordo, obrigando os vaganaus a restituir o dinheiro recebido dos inglezes.
Não houve mais nenhum outro procedimento da justiça contra o inventor e executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu graciosa.
O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e porque a justiça prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfórra.
Palavras textuaes do manuscripto: «...com pena de morte ao negro, que sobre aquella graça com o Chiado não entendesse, pois fôra tão bem achada a graça.»
Tal era a cotação da jocosidade do poeta, que até a justiça se lhe rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de muitas pessoas[[14]].
[14] «Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as vozes de differentes pessoas.» Dic. Popular, vol. IV, pag 268.