Entre as producções literarias de Chiado, que eu não pude encontrar em 1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu encontro.
Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na Bibliotheca Lusitana:
«Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. João Soares, em Lisboa, quando foi á raia pela princeza. É jocosa, e se conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa».
Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graça, de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez tostões. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco. Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela vista, reconheci que o texto concordava com o titulo, e adquiri logo o livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse adivinhar a rasão por que eu o comprava.
D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma.
Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o momento em que foi escripta.
O mallogrado principe D. João, filho de D. João III, desposou sua prima a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser mãe de D. Sebastião o Desejado.
A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553[[15]].
[15] Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que foi em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece fé por ser um documento da epoca, fixa o anno de 1553.
El-rei mandou que fossem buscal-a á fronteira D. João de Lencastre, duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei João Soares, os quaes se fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmãos do duque de Aveiro.