Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado «que não viu a entrada do bispo em Lisboa». Mas tão minuciosamente a descreve que bem se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma valvula de segurança para o caso de lhe imporem a responsabilidade da satyra: teria feito obra por informações inexactas.
Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se entre a multidão em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.
A sua narração é a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo em flagrante.
E tal homem como o Chiado não poderia estar calado nem indifferente por muito tempo, quando toda a população de Lisboa se alvoroçava para assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e não menos pomposo.
A carta de Chiado é, segundo o moderno falar, uma charge; pertence aos dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos á caricatura desenhada.
Assim é que já no Cancioneiro da Vaticana encontramos a seguinte chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-média:
caval'agudo que semelha forom, em cima d'el un velho selegon, sem estrebeyras e con roto bardon, nem porta loriga, nem porta lorigon, nen geolheiras quaes de ferro son, mays trax perponto roto sen algodon, e cuberturas d'un velho zarelhon, lança de pinh'e de bragal o pendon, e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon; e sobarçad' un velh' espadarron; cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom, duas esporas destras, ca sestras non som, maça de fusto que lhi pende do arçom.
Etc.
Este fragmento é o avô da caricatura portugueza nos dominios da literatura.
Vamos vêr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas, caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, azemolas, trombetas, atabales e charamelas.