«O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fôra eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de cavallo, e os que o acompanhavam a pé tambem iam da mesma maneira, e não lhe faltou então cousa alguma de quantas se uzam, e são importantes e necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a grandes gastos e despesa».

Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia á raia de Castella.

Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada mão, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de Arganil, senhor de Coja, alcaide-mór de Avô.

Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.

N'aquelle tempo, não deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra com que o Chiado visou tão alta personagem como era o bispo de Coimbra, em occasião tão solemne para a côrte como era o casamento do principe herdeiro da corôa.

Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se elle se queixasse.

Do valimento do prelado conimbricense junto de D. João III não ha que duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e não chega a ser preciso admittir, como se diz nas instrucções de Paulo III, que a pretexto da confissão obtivesse a solução de muitos negocios.

Chiado era, porém, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu tempo, incluindo o proprio Camões. E a fortuna ajuda os audazes... pelo menos algumas vezes. Não consta que Chiado fosse molestado por causa d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter conhecimento.

Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe diz--«estas novas da entrada do vosso bispo.»

É um artificio literario, para justificar a origem da satyra. Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, não precisava ninguem d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. Lá o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.