Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado, é o gosto pela ostentação.
Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor e magnificencia notaveis.
«E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fôra isto força do estado, mais que de animo vão, passada a occasião do Concilio se poz em caminho de Jerusalem recompensando com a moderação de peregrino voluntaria, as superfluidades de senhor forçadas.»
Talvez que este procedimento fosse determinado por indicação ou censura da Santa Sé, a qual, como já vimos, não lhe era demasiadamente affecta.
A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a ostentação.
Na commissão que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi á raia de Castella buscar a princeza D. Joanna, já havia pompeado o mesmo esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.
Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella commissão: «Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que gastou muito de sua renda».
A Chronica attribuida a D. Manuel de Menezes ainda é mais explicita quando diz:
«Não menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D. Frei João Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: Soli Deo honor et gloria, e quer dizer: A honra e gloria se dê somente a Deus. E isto com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores para o effeito de tão regia funcção, como convinha».
O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapasão, dizendo: