[31] Noticia historica e descriptiva da Sé Velha de Coimbra, por A. M. Simões de Castro.
Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais estimado em Coimbra do que em Roma.
As instrucçóes de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o dão como frade de poucas letras.
Ora isto não é exacto. D Frei João Soares produziu obras varias[[32]], em que affirmou competencia doutrinaria e dicção gentil. Como prégador, se a principio não agradou em Portugal, porque discursava em castelhano muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela. Não se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: «Foi eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os maiores pregadores do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo Demosthenes o veneravam[[33]].»
[32] Veja-se Dicc. Bib., de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X, pag. 350.
[33] Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, liv. II, cap. XVII.
Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graça no dizer, dom natural que não seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias e facilidades na côrte.
D. Frei João Soares nasceu em S. Miguel de Urró, concelho de Arrifana, hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.
Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde 1545 até 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento, onde o respeitaram como orador e theologo.
Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade quiz ser sepultado no chão, fóra da capella do Santissimo que mandára edificar.