Toda a outra clerezia vinha má com boa, como romãs de Castella, esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[[46]] levando nas unhas[[47]] o Rocio e toda a Rua Nova[[48]] até chegarem ao Terreiro do Paço, donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os ginetes tão mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da gente teve poder para os fazer rinchar.
[46] Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio, conduzia ao Campo de Santa Barbara, então chamado da Forca (Lisboa antiga, 2.a parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65 e 68.) Não quero asseverar que correspondesse á actual rua direita dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto então; estendia se desde o sitio dos Anjos até ao actual largo de Arroyos.
[47] Ainda hoje dizemos «na ponta da unha» para designar a maxima velocidade.
[48] A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente, á actual rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D. Diniz.
El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na varanda, onde lhes S. S.a beijou as mãos e lhe fizeram arrazoado agazalhado. Acabado elle os dous irmãos Sá Pereira fizeram outro tanto e apoz estes, «cabeça em cu, que não fique nenhu». Alvaro Mendes, contador da Universidade, foi por cá.
Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paços, e ao descer da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que tão recatado vinha da tezoura.
Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procissão desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa.
Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito. Se mais quizerdes peitae lampreas[[49]], que os homens d'essa terra n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos dê muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas que o tiram e gastam.»
[49] Comprai-me, subornai-me com lampreas. Vê-se que sempre tiveram grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Paço do Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.
Esta carta, que não pudemos encontrar em 1889, não completa ainda o espolio literario do Chiado, porque não tem sido possivel encontrar exemplares de outras especies, taes como o Auto de Gonçalo Chambão, que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edições.