A falta de pontuação nos documentos antigos dá origem a muitas escuridades e equivocos. Assim, na phrase que deixamos transcripta, poderiam caber duas interpretações: que Gaspar Dias tinha a alcunha de Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposição do artigo á palavra--Chiado--reforçaria por si mesma a hypothese de ser alcunha, se a não confirmasse plenamente esta passagem que se encontra no texto do documento:

«Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas cassas de caterina diaz A chiada dalcunha donna veuua etc.»

Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da Porta de Santa Catharina não tinha o appellido de Chiado, como alguns individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que exercia a profissão de «vinhateiro» por ser viticultor ou negociante de vinhos. Bem poderia succeder que os vendesse a retalho na propria casa de residencia, especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.

N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fôra appellido de familia; mas bem póde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse primitivamente de uma alcunha.

Quanto á significação da palavra chiado não ha duvida. Na Revista Lusitana VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto indo-português de Gôa--, auctor monsenhor Sebastião Rodolpho Dalgado (sic), no qual estudo se lê: «Chiado, astuto, ladino. «Não é porque eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros». Do k., sansk chhadmin.» Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo «chiar» e o seu participio podem dar ideia de um sujeito de «ruidosa» reputação como bargante e dizidor. No Brazil o nome--Camões--tomou a accepção popular de--cego de um olho; e até me informam--ó sacrilegio!--que lá se diz, por exemplo, «um cavallo camões». O povo tem um grande instincto de generalisação: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas não vale a pena insistir n'este ponto.

O que faz ao nosso proposito é dizer que a Gaspar Dias fôram aforadas pela collegiada de S. Julião umas casas sitas «no topo da calçada de Pai de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina» e que houve renovação do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve.

A referida calçada é descripta em documentos antigos como sendo--de Payo de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes[[9]].

[9] «Calçada de Payo de Novaes--Corre a dita Calçada ao principio quasi norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do Azulejo thé donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre Leste oeste, e contem thé intestar com a rua do Chiado donde parte o destricto do Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello oeste 25 p.». Tombo da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20.

O Mappa de Portugal, III, 391, diz que a calçada de Payo de Novaes pertencia á freguezia de S. Nicolau.

No livro 8 da Extremadura lê-se, fl. 27: «na rua que vem da callçada que vem de pay de nauaaes pera o poço do chãao e parten (as casas) de hûa parte cõ a albergaria dos tanoeiros da outra cõ casas de S. Vicente de Fora etc. e da outra cõ casas dos banhos do espitall de dona maria de aboym etc. e com Rua pubrica». T em a data de 1467.