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PRESAGIOS

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IX
PRESAGIOS

Por entre o resplendor das festas atravessa não raras vezes uma sombra fugitiva, que deixa no nosso espirito uma ligeira impressão. É a desgraça que passa agitando subtilmente a sua grande aza negra; adivinhando-a, nasce em nós o presentimento.

Por entre as enormes lampadas de ouro, que, no dia da benção nupcial, illuminavam a bazilica da Atocha, adejou essa terrivel ave presaga, e, demorando-se um momento sobre uma das capellas lateraes, chamou para aquelle ponto a attenção de quantos alli tinham mais fina sensibilidade. Comprehendendo, estremeceram esses que{76} viram isto. N'essa capella, um monumento de estylo antigo, um sarcophago de ferro com embutidos de ouro, guarda os restos mortaes do general Prim. Haviam escondido o tumulo para que elle não fizesse ouvir a sua voz sinistra por entre os canticos religiosos, e os hymnos da festa. Mas, postoque escondido, o tumulo fallava, e o presentimento chamou a attenção para o que elle dizia. Era a ideia da morte, do invencivel poder que tudo derruba, que desfolha todas as grinaldas, que envenena todas as felicidades: adivinhava-se tudo isto. Involto em tapeçarias, para que se não deixasse vêr, o gigante, se não podia bracejar, deixava presentir o seu vulto; de mais a mais aquelle tumulo era o do general Prim: poisavam sobre aquelle sarcophago dois vaticinios terriveis.

Quem sabe, ai! quem sabe! se Mercedes, a noiva ditosa, ao inclinar a fronte deante do patriarcha das Indias para ligar o seu destino ao do rei de Hespanha tão moço e tão namorado como ella, não relanceara involuntariamente o olhar para aquella capella que escondia um tumulo, e não sentira no coração a dôr lancinante de uma punhalada vibrada por mão invisivel! Quem sabe até se uma lagrima, uma lagrima crystallina e esquiva, não rociára por momentos a face da bella hespanhola,{77} refrangendo a luz dos lampadarios! Se alguem viu essa lagrima, se o rei D. Affonso a surprehendeu, tomal-a-ia por uma d'essas perolas em que a alegria, quando é profunda e immensa, se desentranha, porque a lagrima é o verbo mudo de todas as grandes commoções.

Mas não paravam aqui os vaticinios; os que os procuravam, até fóra de Hespanha os encontravam. Um rei, dos mais enamorados que teem occupado os thronos da Europa, o rei galantuomo, havia fallecido recentemente. A Italia, o bello paiz da arte e do amor, chorava ainda a perda d'aquelle esbelto homem, ao mesmo passo fragoeiro na rudeza das caçadas, e galante no remanço das salas; a Italia, poisando a fronte melancolica sobre a urna vitrea do Adriatico, parecia chorar. E quando a Italia chora, o coração da Europa soluça.

Nas vastas paragens habitadas pelos povos slavos, a guerra estrondejava; o echo longinquo da carnificina, da lucta tremenda em que dois grandes imperios rivaes procuram despedaçar-se, rumorejava em todos os circulos de conversação, nas noticias palpitantes de todos os jornaes.

Ás lagrimas da Italia juntava-se o sangue da Turquia.{78}