Pio IX, o velho pastor do rebanho catholico, abençoára o casamento do rei de Hespanha com a mão senil quasi fria. Hora a hora, a sua vida atufava-se na grandeza da immortalidade, e os corações religiosos assistiam commovidos ao lento declinar d'aquelle astro que parecia luctar pela vida e pela Egreja já suspenso sobre o poente.

Havia, por toda a Europa, a tristeza d'um occaso, a concentração de muitas incertesas: qual seria o desfecho da lucta no Oriente? como deslisariam os dias da Italia sob o governo de um novo rei? por que tempestades passaria o orbe catholico quando a velhice de Pio IX exhalasse o derradeiro alento?

A Europa estava agitada, receiosa, e não era este o scenario mais de geito para uma festa nupcial. Os representantes das poderosas côrtes extrangeiras, que concorreram a Madrid, pareciam preoccupados: agitavam-se-lhes na mente os problemas do futuro.

Influencia do estado geral do mundo europeu, ou tibieza de animos apprehensivos, um facto occorrido em Madrid tomára um caracter presago para algumas pessoas. Dos fidalgos que se apresentaram a lidar toiros, um sahira mal-ferido da arena. Uma onda de sangue, jorrando do{79} peito d'esse fidalgo toireiro, quiz parecer ruim vaticinio.

Entretanto, o rei de Hespanha dava-se por indemnisado de quanto havia soffrido em tão verdes annos. Mercedes era, finalmente, sua. Ao mesmo passo julgava-se forte para soffrer no futuro. Tinha sobre o seu coração um escudo de aço: era o amor da rainha.

Então lembrava-se dos seus amigos, dos seus condiscipulos de collegio: quizera que todos elles presenciassem a sua felicidade. Estando na familia, esquecia-se de que tambem estava no throno. Por isso escrevia ao archiduque Frederico de Austria, que estava para desposar a princeza Izabel de Croy: «Prohibo-te que me trates por magestade nas tuas cartas, trata-me como no tempo do Teresiano. Quando te casares vem a Madrid com tua mulher, a qual travará conhecimento e amisade com a minha, porque Mercedes é muito boa e amavel. Recordaremos os antigos tempos. Assim passarás uma lua de mel tão feliz como a que eu desfructei.» N'estas poucas linhas está um hymno de felicidade; é a voz de um coração francamente sincero e ditoso—d'um coração em flôr.

Que pena que elle não podesse ser completamente feliz!{80}


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NOIVANDO