Entretanto a aguia negra, que roçára a sua aza pelo tumulo de Prim, trouxera-a de lá impregnada de uma poeira de morte, que sacudira sobre o palacio real das Hespanhas. Essa poeira, como se fôra uma chuva de fogo, crestára lentamente, invisivelmente as flôres do boudoir de Mercedes. Quem sabe se a pobre rainha, ao vêr languescer a primeira flôr do seu noivado, não{87} lêra nas pétalas desbotadas um vaticinio horrivel! Essa flôr não podia ser por modo algum um symbolo do amor do rei; que esse amor, tão profundo, tão ardente, tão raro, era indubitavelmente do amor que fica quando as flôres emmurchecem. Mas, como sempre, essa pequenina flôr era a imagem da morte: hontem sorrira ella no bouquet nupcial de Mercedes, hontem lançára sobre o vestido roçagante da rainha o reflexo colorido da sua formosa corolla. Hoje derramára no ar a sua alma de aroma, e passára. Porque não seria Mercedes como ella? Flor pela formosura, tambem vivera hontem, hontem principalmente, no templo, ao lado de Affonso, e aos pés de Deus. Essa grande commoção bem sentia a rainha que devia ter consumido uma parte da sua alma; porque as commoções são de fogo, queimam. Portanto, que lhe restava? Deixar-se aniquilar como a flôr. Dar o seu ultimo olhar a Affonso, a sua derradeira lagrima á Hespanha, a sua alma ao céo. Emquanto o amor e a morte se digladiavam n'um duello terrivel, sangrento, talvez Mercedes dissesse comsigo mesma: «Ha cinco mezes que ouvi nas ruas a um pobre trovador popular que me saudava: Vai, rainha, tão bella como a flôr, sua irmã pelas graças da formosura. Se é verdade o que elle disse, que Deus receba{88} a minha alma e proteja Affonso.» Depois, olhando por ventura para o relogio da sua camara, pela primeira vez acharia uma significação horrivel, atroz, n'aquella phrase outr'ora tão doce: Para sempre! Para sempre, a eternidade, a separação completa, o cerrar dos olhos nas trevas do sepulchro, o esfriar do coração para não mais aquecer.

De repente, os jornaes de Hespanha annunciáram que a rainha Maria de las Mercedes havia enfermado gravemente.{89}


AGONISANDO

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XI
AGONISANDO

Era entrado o estio. Os grandes calores iam queimar as ultimas flôres que estrellavam os campos. Uma febre terrível prostrára effectivamente a formosa rainha de Hespanha. Nem as flôres do throno escapavam ao ardor da sazão.

A Europa ficou dolorosamente surprehendida, alvoroçada com essa triste noticia. Quando a vida de uma noiva corre perigo, parece que sente a gente a oppressão de um dia de inverno em plena manhã de primavera. E essa noiva era ao mesmo tempo uma rainha: tinha o triplice prestigio da sua posição, da sua formosura e da sua virtude. Pertenciam-lhe tres corôas:{92} uma de ouro, porque era rainha; outra de larangeiras, porque era noiva; a ultima de rosas, porque era bella. Profanar tres corôas de uma só vez, affigurava-se uma impiedade, um crime. A enfermidade que prostrou a rainha Mercedes pareceu desde logo um attentado da natureza contra a natureza, um facto horrivelmente extraordinario.

No dia 24 de junho, porém, dia de festa para os povos da peninsula, a rainha sentiu-se mais alliviada por noite dentro. Supposeram os medicos vêr chegar um periodo de reacção favoravel. Pareceu que a natureza havia comprehendido que não podiam os reis chorar nos dias assignalados ás festas do povo.

Deslisou tranquilla a noite, e sobre a manhã pôde a rainha ser transportada, nos braços dos que mais amava, para outro leito. Rodeiavam a doente o rei, os duques de Montpensier, a princeza das Asturias, a infanta Christina, a marqueza de Santa Cruz. Parece que os doentes querem fugir á morte mudando de leito. O rei comprehendeu o que se passava n'aquella alma gentil. Luctando pela vida, a rainha pensava mais nos outros do que em si. Queria salval-os, sabia quão fundo pungiria no coração da familia real a dôr de a vêr morrer.{93}