Quando o corpo da rainha pendeu alquebrado sobre os braços de Affonso XII, quizera o rei ser mais forte do que nunca. Não pôde. As lagrimas brotaram em torrente. A rainha viu-as, e disse: Vamos, Alfonso, no llores ó me enfadaré. Singular coragem do amor! O fraco tornara-se forte.
A doença do corpo e do espirito sopitára a rainha, que adormeceu serenamente. Sobre o seu bello corpo adormecido pairou o sorriso de uma esperança. Então alguns dos seus nobres enfermeiros foram descançar; ficaram outros, de atalaya ao leito, seguindo com a vista o menor movimento da physionomia, a menor alteração do semblante. Eram o marido e a mãe. Não podia haver no mundo mais dedicados enfermeiros.
Um correspondente de Madrid, dando noticia do doloroso alvoroço que ía na camara da rainha, dizia: «Os aposentos contiguos pareciam um acampamento: a princeza das Asturias descançava no quarto de toilette da rainha, o duque de Montpensier no salão carmezim, o cardeal Moreno no salão amarello, o patriarcha das Indias no gabinete azul; e as pessoas do serviço da côrte descançavam por differentes salas em fauteils e divans.»
Verdadeiro acampamento assestado contra{94} a invasão da morte. Ao menor gemido, despertavam os defensores d'aquella vida preciosa. A batalha era de lagrimas e orações. Combatia-se pedindo; luctava-se chorando.
Começou a declinar a tarde, e o estado da rainha pareceu tornar-se grave. Correu no acampamento a voz de alarme. Acudiu cada soldado ao seu posto. A gravidade dos symptomas denunciou que era aquella uma lucta a todo o transe. A cada passo que a morte dava para o leito oppunha-se-lhe uma barreira de lagrimas, uma muralha de orações.
Um raio de sol poente doirava a camara real, animava muito a furto o perfil das estatuetas, e dos retratos. Affigurava-se que tudo tinha olhos para vêr, mas com um olhar nublado, afogado em lagrimas. Uma photographia de Mercedes, voltada para o leito, parecia chorar a sorte d'aquella noiva desventurosa, tão outra, tão demudada, que se não conhecia a si propria...
Era aquelle o dia de S. João, o dia das trovas, dos risos, dos vaticinios amorosos. Esse raio de sol era, portanto, como que um pensamento de amor que penetrava a medo na camara de uma noiva moribunda.
Como se a morte estivesse esperando pela noite para atacar melhor, o estado da rainha peiorava á medida que as horas passavam.{95} Vem, combatente traiçoeiro, pela calada da noite, pé ante pé, imprime o teu beijo de gelo na fronte de uma pobre mulher, que tu prostraste no leito. Fere, mata, sê impiedosa á vontade, mas sabe que não entras despercebida, ó morte. Ha muitos olhos a espionarem-te nas trevas, muitos corações a adivinharem-te no silencio. O leão de Florença foi mais clemente do que tu: mostraram-lhe uma creança, e deteve-se. Aqui tens tambem uma creança, dezoito annos apenas, e não páras, e não te movem orações, e não te entristecem as lagrimas!
Nos botiquins, cheios de gente até hora muito avançada da noite, porque a anciedade era geral, a noticia de que o perigo augmentára, deixára todos assombrados. Um povo essencialmente poeta, como o de Hespanha, não póde vêr morrer uma noiva com olhos enxutos. Madrid chorava áquella hora.
No palacio real, emquanto o conselho de ministros reunia para deliberar em tão grave conjunctura, o patriarcha das Indias ministrava a santa uncção á moribunda, e, fallando-lhe de Deus, perguntava-lhe se lhe custava morrer: Si, por Alfonso e por mis queridos padres, respondia a rainha. E havia apenas cinco mezes que aquella mesma voz solemne saudava a noiva, e na noiva{96} a rainha, na grande bazilica da Atocha, cheia de flôres, de canticos, de scintillações...