A hora extrema pareceu chegada. Os medicos desalentaram. D. Affonso participava pelo telegrapho a seus pais que a vida da rainha se julgava perdida; os duques de Montpensier faziam igual participação aos condes de Paris.
A doente parecia querer luctar contra a escuridão que lhe obumbrava o cerebro. Aproveitava os raros instantes de lucidez para achegar a si a cabeça do rei, para lhe beijar a mão.
E todavia já não podia fallar.{97}
MORTA!
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XII
MORTA!
Foi demorada, longa, a agonia da rainha. Os laços que a prendiam ao mundo eram tão recentes, que foi preciso um grande esforço da morte para os fazer estalar. Alem do que, não se vence facilmente o combate travado com um exercito de affectos. O amor defende-se até á ultima barricada. E os duques de Montpensier, que eram paes, estavam alli, á beira do leito, firmes como sentinellas vigilantes; e D. Affonso XII, que era esposo, estava alli tambem, immobilisado na estupefacção das grandes dôres, tendo a mão direita poisada sobre a fronte da moribunda. As irmãs do rei e da rainha faziam{100} das suas lagrimas uma como ultima defeza. Quadro verdadeiramente grandiosa em sua melancolica e commovente sublimidade!
Alvoreceu no céo de Hespanha a manhã do dia 26 de junho. Estava escripto no livro dos destinos humanos, que fosse aquelle o ultimo dia da rainha. Poucas horas poderia viver ainda, segundo o prognostico dos medicos. Então o amor teve de se confessar vencido perante a morte. A esperança na sciencia fugiu; veio substituil-a a esperança na misericordia de Deus.
A familia real orava de joelhos, n'um recolhimento profundo, solemne. Só o rei não podia orar: a dôr paralysara-lhe a intelligencia e embargára-lhe a voz. Conservou-se de pé, pallido e firme como uma estatua, junto ao leito da rainha. Não houve pedidos, instancias, que conseguissem arrancal-o d'alli. Dir-se-hia que o rei desejava que a morte, ao vibrar o golpe decisivo, se enganasse na victima, e o prostrasse a elle...